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Acho que foi você, Renato Russo, quem escreveu que, no fim, acabamos sentindo justamente a dor que tentamos evitar. Talvez seja isso.

Talvez existam dores para as quais a linguagem nunca seja suficiente. Dores que pedem uma voz maior do que a nossa consegue vocalizar. Fico me perguntando se era disso que você falava: da tentativa, quase impossível, de dar palavras àquilo que parece maior do que qualquer palavra.

E então me ocorre outra pergunta: será que a dor nos faz escutar aquilo que, por tanto tempo, nos recusamos a ouvir?

Tenho conversado com essa dor. Pergunto o que ela quer me dizer, por que chegou, por que insiste em permanecer. Às vezes, ela me acusa: diz que eu deveria ter parado antes, que deveria ter me cuidado, que não olhei para mim. Pensando bem, talvez ela nem esteja me acusando. Talvez esteja tentando me proteger.

Mas por que ela aperta tanto?

Por que me leva para lugares emocionais tão difíceis? Por que me conduz à ausência, à solidão? Talvez porque essa seja uma experiência vivida apenas entre nós: eu e a dor. Como se, nesse território, não coubesse mais ninguém.

Há uma semana habitando essa intimidade, continuo perguntando o que ainda não escutei. O que ela precisa me dizer? Preciso falar mais? Dividir mais a vida com o outro? Transformar alguma coisa? Chorar mais? Amar mais?

Em alguns momentos, simplesmente desisto de encontrar uma resposta.

Porque essa dor não fala apenas do meu corpo. Ela me leva às minhas dores emocionais, ao quanto não pude estar, ao quanto, às vezes, ainda não posso estar com as pessoas que mais amo, com quem eu gostaria de dividir não apenas a alegria, mas também o sofrimento.

Ela me leva, ainda, às dores da fantasia: às dores que antecipo, às dores que ainda nem senti, às dores que talvez um dia eu venha a sentir.

Quando penso em Frida Kahlo, lembro-me de suas palavras sobre a dor. Ela dizia que convivia com ela o tempo todo. Talvez por isso tenha testemunhado, na própria existência, esse lugar tão delicado onde a dor física encontra a dor emocional.

E isso me faz perguntar: onde termina uma e começa a outra? Em que ponto elas se atravessam? De que maneira uma desperta a outra, ou até se confunde com a outra?

Talvez existam momentos em que seja impossível dizer onde termina uma e começa a outra. O corpo sente, a alma reverbera. A alma dói, e o corpo responde. Como se compartilhassem uma mesma linguagem, um mesmo território, onde a ferida física e a ferida emocional deixassem de ser duas experiências distintas para se tornarem apenas dor.

Não para que uma explique a outra, mas para lembrar que somos um só.

Começo a desconfiar de que a dor física nunca chega sozinha. Ela abre portas. Convoca memórias, ausências, medos, culpas e amores. Como se dissesse, silenciosamente: ?Já que você precisou parar, agora olhe.?

Talvez esse seja o seu convite mais difícil: não apenas suportá-la, mas escutá-la.

E, como Bion nos ensinou, talvez o trabalho da vida seja tornar proveitoso um mau negócio.

Quem sabe seja isso que eu esteja tentando fazer com essa dor.

Na esperança de que, aprendendo a sofrer a dor, eu também aprenda a sofrer o amor.