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Quando paro para pensar, os algoritmos que envolveram algumas das minhas últimas escolhas, à primeira vista, me assustam. Parece que existe em mim uma lógica muito dura, quase um imperativo silencioso: ?você dá conta?, ?vamos lá?, ?você é forte?. É curioso perceber isso justamente porque detesto a ideia de positividade tóxica. Ainda assim, em alguns momentos, foi como se eu a reproduzisse comigo mesma.

Mas, quando olho mais profundamente, percebo que esses algoritmos são ambivalentes. Eles não nasceram apenas do trauma. Há uma parte deles que construiu algo muito valioso: autonomia. Foram esses mesmos circuitos que me ajudaram a construir uma clínica, estudar, criar, confiar em mim, experimentar a alegria de perceber que sou capaz. Existe força aí. Existe desejo. Existe vida.

Ao mesmo tempo, essa autonomia também foi construída sobre uma reação em cadeia traumática. Meu sistema foi recebendo mensagens contraditórias durante muitos anos. As falas do meu pai ? ?está difícil?, ?o dinheiro vai acabar?, ?ganhar dinheiro não é fácil? ? foram inscrevendo em mim uma sensação permanente de ameaça. Aos poucos, desenvolvi quase uma recusa em receber qualquer coisa dele, como se depender significasse colocar minha segurança em risco.

Só que existe outro pai. O pai que nunca deixou faltar. O pai que me convida para viajar justamente quando estou exausta. O pai cuidador, generoso, presente. Esses dois registros coexistem dentro de mim e confundem profundamente a direção dos meus algoritmos. De um lado, preciso provar que não dependo de ninguém. Do outro, existe uma experiência concreta de alguém que cuidou de mim. Essa ambivalência me fez rodopiar durante muito tempo.

Minha mãe, por sua vez, escrevia outro algoritmo. Escutá-la dizer ?peça para o seu pai, ele tem dinheiro? foi me ensinando, silenciosamente, que os recursos estavam sempre do lado de fora, nas mãos de alguém. E, depois da separação e da perda do meu irmão, vi uma mulher que, aos poucos, interrompeu a própria circulação da vida. O desejo, a produção, a criação foram cedendo lugar ao recolhimento. Sem perceber, também fui aprendendo que, diante da dor, viver podia significar parar.

Quanto mais olho para a minha autonomia, mais percebo que ela tem uma origem dupla. Durante muito tempo pensei que ela fosse uma coisa só, mas não é.

Existe uma autonomia que nasce do desejo. É aquela que me permitiu construir uma vida, uma profissão, uma identidade. Essa autonomia é saudável. Ela não precisa ser abandonada.

Mas existe outra autonomia construída como resposta ao trauma. Ela nasceu do medo. Da necessidade de nunca precisar. Da tentativa de garantir que eu jamais ficaria desamparada. Essa autonomia é rígida, vigilante e exausta. Trabalha para evitar um perigo que, muitas vezes, já não existe mais.

Talvez o desafio não seja abrir mão da autonomia, mas libertá-la da sua origem traumática. Continuar sendo independente, mas porque eu desejo, e não porque estou fugindo da falta. Continuar produzindo, mas sem que a produção seja uma tentativa de anestesiar a ansiedade. Continuar crescendo, mas sem que o crescimento seja uma resposta desesperada a um medo antigo.

Quando observo minha história, vejo que esses algoritmos foram sendo escritos por muitas mãos. Talvez seja justamente do encontro dessas histórias que nasceram algumas das minhas contradições. Em certos momentos, trabalho até a exaustão para provar que dou conta. Em outros, gasto compulsivamente, como se o consumo pudesse reparar afetos que nunca encontraram um lugar de descanso. Não são movimentos opostos. São respostas diferentes ao mesmo desencontro interno. De um lado, tento controlar a escassez. Do outro, tento preencher uma falta que nunca foi financeira.

Hoje percebo que esses comportamentos não definem quem eu sou. Eles são estratégias que um dia fizeram sentido. Foram tentativas inteligentes de um psiquismo que buscava equilíbrio com os recursos que possuía.

Talvez exista um fio que costure todos esses algoritmos.

Quando digo ao meu marido que uma parte da minha crise tem relação com uma insegurança profunda, um medo de caminhar, não estou falando apenas da lesão ou do momento que vivo. Estou falando de uma memória muito antiga. E percebo que esse medo também encontra eco na história dele, tanto na forma como lida com o dinheiro quanto, principalmente, na maneira como atravessa a própria vida emocional. Talvez seja justamente isso que tenha aproximado nossas histórias.

Existe algo em comum entre todas essas personas que habitaram e ainda habitam o meu mundo: meu pai, minha mãe, meu marido e, consequentemente, eu. Não faltou apoio financeiro. Não faltou incentivo. Não faltaram oportunidades. O que frequentemente faltou foi um tipo muito específico de presença: o suporte emocional.

Hoje começo a pensar que suporte emocional não é alguém que resolve os nossos problemas. Também não é alguém que sabe exatamente o que devemos fazer. Muito menos um herói que nos salva da dor.

Suporte emocional talvez seja um campo.

Um campo que permanece quando estamos perdidos. Que não invade, mas também não abandona. Que consegue suportar a nossa dúvida sem exigir respostas imediatas. Que acolhe o medo sem transformá-lo em vergonha. Que celebra as conquistas sem nos capturar nelas. Que continua presente enquanto atravessamos o desafio de crescer.

Na linguagem da psicanálise, talvez essa seja uma das funções mais preciosas do desenvolvimento: alguém nos empresta um aparelho para pensar enquanto ainda estamos construindo o nosso. Não pensa por nós. Não vive por nós. Não elimina a dor do caminho. Apenas permanece suficientemente presente para que possamos, aos poucos, transformar experiências brutas em experiências pensáveis.

Talvez tenha sido justamente isso que, em muitos momentos, faltou na minha história. Havia liberdade. Havia soluções. Havia dinheiro. Mas nem sempre havia um campo emocional capaz de sustentar a experiência de não saber, de errar, de sentir medo, de crescer.

Talvez seja por isso que tantas vezes senti que precisava dar conta sozinha. Não porque ninguém estivesse por perto, mas porque, emocionalmente, muitas vezes caminhei desacompanhada.

E talvez esse seja o verdadeiro trabalho da vida adulta: construir dentro de mim esse campo que um dia procurei fora. Um lugar interno capaz de sustentar minhas dúvidas sem entrar em pânico, de acolher meus medos sem transformá-los em urgência e de confiar que crescer não significa nunca mais precisar de alguém. Significa ter internalizado uma presença suficientemente boa, um aparelho para pensar que um dia me foi emprestado ? ou que agora posso, finalmente, oferecer a mim mesma.

Talvez seja isso que hoje eu chamo de maturidade: conservar a força, a disciplina, a capacidade de construir e de amar, mas deixar para trás o medo que, durante tanto tempo, precisou sustentá-las. Continuar sendo autônoma, não porque preciso sobreviver, mas porque finalmente posso escolher viver.