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Toda prática de cuidado carrega uma concepção de sujeito, mesmo quando ela não é explicitada. Há uma lente que pode enxergar um corpo envelhecido sobretudo a partir de suas perdas: aquilo que já não anda, já não lembra, já não consegue realizar sozinho. Há outra que pode enxergar diagnósticos, limitações, riscos e necessidades de manejo. Há ainda uma lente institucional, atravessada por horários, medicamentos, alimentação, higiene, segurança e organização da rotina. Todas elas dizem algo verdadeiro e necessário. O problema talvez comece quando uma dessas lentes passa a ocupar todo o campo de visão.

Porque diante daquele corpo existe também uma história. Uma subjetividade.

Existem memórias, desejos, vínculos, amores, ressentimentos, saberes, medos, gestos aprendidos ao longo de décadas, maneiras particulares de habitar o mundo. Existe aquilo que pode ser dito e também aquilo que não encontra palavras, mas aparece no corpo, no olhar, no silêncio, na repetição, na forma de aproximar-se ou afastar-se do outro.

O envelhecimento não retira do sujeito sua complexidade, muito menos sua pulsão de vida.

O que acontece quando a organização necessária da vida coletiva começa a encobrir as singularidades. Quando ?a senhora do quarto três?, ?o cadeirante?, ?a demenciada?, ?a que chora?, ?o que dá trabalho? passam a ocupar o lugar de uma pessoa inteira. A instituição precisa organizar, classificar e estabelecer rotinas para funcionar. Mas é justamente nessa operação que existe o risco de o sujeito desaparecer atrás daquilo que permite administrá-lo.

Nesse sentido, falar de negligência exige mais do que identificar aquilo que deixou de ser feito. Há negligências visíveis e concretas, que precisam ser reconhecidas como tais, mas há também formas mais silenciosas de apagamento: não perguntar, não escutar, não considerar, não reconhecer naquele corpo uma história e uma potência que ultrapassam sua condição presente.

Por isso talvez seja importante deslocar a pergunta da negligência para as lentes do cuidado.

O que vejo quando olho?

Uma senhora permanece contida e movimenta repetidamente o corpo. Uma lente pode enxergar apenas agitação. Outra pode perguntar o que ainda se movimenta naquele sujeito. O que aquele corpo procura? O que insiste? O que comunica? Talvez o movimento seja também uma tentativa de produzir presença, de experimentar alguma vitalidade possível diante de um cotidiano em que tantas possibilidades de ação já foram retiradas.

Em outro momento, uma residente chora.

Imediatamente surgem vozes ao redor: ?não chora, não?.

É uma frase de cuidado. Mas também pode ser uma frase que revela o quanto é difícil permanecer diante da tristeza do outro. Há uma tendência humana a tentar retirar aquilo que nos angustia presenciar. Nesse dia, porém, ela encontrou o ombro de uma estagiária, apoiou a cabeça e simplesmente chorou.

Nada precisou ser resolvido.

Talvez tenha havido cuidado justamente porque houve alguém disposto a não interromper sua experiência.

Essas cenas também nos obrigam a dirigir a lente para quem cuida. O trabalhador de uma instituição não é apenas ?o cuidador?. É também um sujeito atravessado por sua própria história, seus medos, limites, condições materiais de trabalho e modos de se defender daquilo que encontra cotidianamente. Estar repetidamente diante da dependência, da deterioração corporal, da solidão, da doença e da morte produz efeitos. Em determinadas circunstâncias, afastar-se afetivamente pode tornar-se uma maneira de continuar trabalhando.

Compreender isso não significa justificar a negligência. Significa ampliar o campo para perguntar que instituição estamos construindo quando esperamos que alguém cuide continuamente do sofrimento humano sem que exista também um lugar para elaborar aquilo que esse encontro produz.

Por isso, talvez a pergunta ?quem cuida de quem cuida?? seja menos retórica do que parece.

Quando pensamos o envelhecimento por outras perspectivas culturais, nossas próprias lentes tornam-se ainda mais visíveis. A figura dos griots em diferentes sociedades da África Ocidental oferece uma imagem particularmente fértil. Griots e griottes ocuparam historicamente funções ligadas à preservação e transmissão de genealogias, histórias, acontecimentos, músicas e conhecimentos coletivos. A pessoa mais velha, portanto, não precisa aparecer apenas como alguém que perdeu capacidades. Pode ocupar também o lugar daquele que carrega memória.

Essa diferença de perspectiva é importante porque nos obriga a perguntar o quanto nossa maneira de olhar para a velhice é também uma produção social.

Uma sociedade organizada em torno da velocidade, da produtividade, da autonomia e da novidade tende a encontrar dificuldade diante de corpos que desaceleram, dependem, repetem e precisam ser cuidados. Talvez parte daquilo que chamamos de problema do envelhecimento revele também um problema do nosso próprio olhar.

O que fazemos com alguém quando seu valor já não pode ser medido pela produtividade?

O que acontece quando começamos a olhar um residente não apenas pelo que perdeu, mas por aquilo de que é portador?

Uma memória.

Uma música.

Uma profissão.

Uma história de amor.

Uma habilidade.

Uma lembrança de infância.

Uma maneira de fazer café.

Uma oração.

Uma dança que o corpo talvez já não consiga executar, mas ainda reconhece quando a música começa.

Talvez seja justamente aí que a temporalidade ganhe outra dimensão. A psicanálise nos lembra que o inconsciente não obedece linearmente ao tempo cronológico. Uma lembrança de cinquenta anos pode permanecer afetivamente presente. Uma música pode devolver ao corpo algo que parecia perdido. Um nome pode abrir uma história inteira. Aquilo que cronologicamente passou pode continuar subjetivamente acontecendo.

O cuidado, então, pode ser pensado como uma prática de reconhecimento.

Reconhecer que existe alguém antes do diagnóstico e para além dele. Reconhecer que um corpo dependente continua sendo um corpo habitado por uma história. Reconhecer que mesmo quando a linguagem falha outras formas de expressão permanecem. Reconhecer também que quem cuida não é apenas uma função institucional, mas outro sujeito, igualmente atravessado pela experiência daquele encontro.

Talvez seja esse o deslocamento que a Psicologia Social possa provocar dentro dessas instituições: não oferecer apenas uma nova técnica de cuidado, mas produzir novas lentes.

Lentes capazes de enxergar o sujeito onde a rotina enxerga uma tarefa.

A memória onde se enxerga repetição.

Uma tentativa de comunicação onde se enxerga apenas comportamento.

Uma história onde se enxerga um diagnóstico.

Um trabalhador onde se enxerga apenas um cuidador.

E alguém que precisa ser sustentado onde se supõe que exista apenas alguém cuja função é sustentar.

Porque cuidador e cuidado não são lugares tão fixos quanto parecem. São posições que se encontram, se afetam e, em determinados momentos, podem até se inverter.

Talvez cuidar comece justamente aí: na possibilidade de continuar mudando as lentes para que, mesmo dentro das limitações de uma instituição, o outro não desapareça de nosso campo de visão.