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Sabe quando você deixa de molho, no balde, uma roupa e esquece? E você volta 3,4 dias depois, e aquela roupa está insossa, a mancha não saiu completamente e a roupa está meio amarelada. Assim estava eu no sofá há três dias, desde que lesionei meu nervo ciático.

É muito fácil a gente se machucar e encontrar culpados do lado de fora: foi a ginástica, foram as aulas, foi qualquer coisa que não a incapacidade de nos proteger e de colocar limites na nossa impulsividade. Ou, melhor dizendo, de contornar as angústias e dar conta delas.

Aproximadamente há um mês, eu vinha pedindo férias para mim mesma. Férias do consultório, férias da correria, férias da bolsa que estava pronta às 6h da manhã e que chegava em casa às 22h para ser trocada por roupas limpas para o dia seguinte. Férias desse corre-corre, onde o final de semana era engolido semana após semana.

Consegui encontrar uma brecha, segurar o consultório, pausar por uma semana para que eu pudesse, então, restabelecer os meus nervos. Só que estes mesmos se esgotaram antes das férias chegarem. E aqui estou eu, com meu ciático inflamado, sem poder me deslocar.

Será que eu só sei cuidar do outro e não sei cuidar de mim?

Lembrei-me de vários pacientes para quem, em algum momento, perguntei: por que você vive tanto para o outro? Como seria viver a partir de você mesmo e para você mesmo?

Engraçado?Ao escrever isso agora, quase soa como uma frase de autoajuda. E, no entanto, talvez essa seja uma das verdades mais simples e mais difíceis de sustentar. Afinal, foi assim que, na maioria das vezes, uma mulher aprendeu a estar no mundo: cuidando do outro, muitas vezes à custa de si mesma.

Mas será que, quando cuido do outro, cuido realmente do outro? Ou será que cuido do outro em mim que habita o outro? Lembro-me de uma ideia de Clarice Lispector: o outro do outro habita em mim. Talvez seja justamente por isso que o cuidado nunca seja tão simples. Ao cuidar do outro, encontro inevitavelmente partes de mim mesma. E talvez o desafio seja esse: conseguir cuidar do outro sem abandonar a mim mesma.

E esse ?outro? pode ser muitas coisas. Pode ser um companheiro, um filho, alguém que já morreu, os pais, os mais frágeis, os oprimidos, os animais, um projeto, uma profissão. A verdade é que, muitas vezes, a vida inteira é organizada em torno do cuidado do outro, enquanto nós mesmas vamos ficando de molho, esperando que, em algum momento, alguém se lembre de nos vestir de novo.

Pergunto-me: o que isso significa? Será que eu não consigo achar que mereço umas férias, achar que posso gozar as férias porque sou um ser humano? Será que estou me punindo por ter tirado férias? Estou punindo a minha relação porque meu companheiro não ia poder tirar férias comigo? São tantas perguntas sem respostas que desisto de perguntar e pauso.

Como podemos dialogar acerca do trabalho sem pensar o quanto, por mais prazeroso que ele seja, ele pode representar uma fuga das nossas angústias mais existenciais? Na fantasia, parece que abraçar o trabalho vai nos salvar de tudo aquilo com que a gente não sabe lidar. Desde as nossas relações mais íntimas, passando pela relação com o dinheiro, com a saúde e chegando à nossa relação com a vida. De fato, a violência com que temos nos implicado nas rotinas de trabalho me faz pensar na dependência que criamos com ele.

Parece que a nossa identidade é moldada a partir do que fazemos neste mundo. E, quando não estamos fazendo, viramos roupa de molho no balde.

A verdade é que a gente se machuca com o jeito que vive. Mas que jeito é esse? Que forma de estar no mundo é essa que vai nos desgastando aos poucos, até que o corpo já não consegue mais sustentar o ritmo?

E se a gente inverter o ponto de vista? A vida não é só ficar lavando roupa, tirando manchas, consertando acidentes. Será que essa mancha não foi de uma noite bem vivida? De uma taça de vinho apreciada entre risos e boas conversas? Será que estamos olhando para isso?

E, já que estamos falando de roupa, quantas vezes olhamos para a roupa do outro e imaginamos que ela nos serviria melhor? A roupa que está viajando, que foi conhecer outro país, que foi assistir ao Brasil jogar na Copa. Mas o Brasil perdeu. Que roupa cara deve ter sido essa?Ou talvez aquela roupa ainda pendurada no cabide, que nunca foi vestida, nunca foi alvejada, nunca foi marcada pela vida e, por isso mesmo, parece tão perfeita.

Talvez o nosso trabalho seja outro: aprender a vestir as nossas próprias roupas, as nossas próprias vestimentas. Habitá-las. Descobrir, no uso, onde apertam, onde folgam, onde nos permitem respirar. Porque talvez só assim consigamos entender qual roupa veste, de fato, quem somos.

E onde fica a nossa capacidade de desfrutar as coisas, se o nosso olhar está sempre na falta, sempre no fazer eterno, sempre em realizar algo? Parece que a capacidade de gozo, de prazer e de alegria vai sendo engolida.

Será que foi a religião monoteísta que matou nossa capacidade de viver pelo prazer e nos ensinou a viver através da dor? Mas alto lá, não viremos hedonistas. A vida precisa de esforço. A vida precisa de movimento. Sim! Mas qual é o eixo de equilíbrio entre a dor e o prazer? Como essas duas vertentes dialogam e se harmonizam dentro da gente? Como uma balança que pesa sempre para um lado, enquanto o outro vai se esvaziando.

São muitas perguntas e talvez nenhuma resposta. O fato é que cuidar de si mesmo, dessa matéria-prima de onde tudo parte, de onde todas as relações se tornam possíveis, me parece ser nossa tarefa principal. Cuidar de si para poder cuidar dos seus e estar consigo mesmo para poder estar com quem amamos.

E assim minhas férias vão se desenrolando: cuidando de mim, me atendendo, dialogando comigo, enquanto o consultório descansa e o cuidado com o outro recebe uma pausa, apesar de seguir cuidando do outro do outro que habita em mim.