Muitas vezes não é uma tarefa fácil, não é mesmo?
Aprender a ter compaixão por si mesmo talvez seja uma das tarefas mais difíceis. Passamos tanto tempo procurando o problema no outro que esquecemos de reconhecer o outro que vive em nós. Como sugere Clarice Lispector ao falar do ?outro do outro?, existe sempre uma alteridade que nos habita, um território desconhecido do qual, muitas vezes, fugimos. E talvez seja justamente essa fuga que nos faça permanecer em guerra.
Melanie Klein nos ajuda a compreender esse movimento ao pensar nossa relação objetal com o mundo. Aquilo que vivemos é introjetado. Parte da experiência encontra lugar, é transformada, torna-se quem somos. Outra parte permanece sem digestão, como um objeto interno que insiste em nos perseguir. O que não conseguimos reconhecer em nós acaba sendo projetado para fora. Assim, brigamos com pessoas, situações e ideias quando, muitas vezes, estamos brigando com aspectos nossos que ainda não puderam ser pensados. A compaixão por si, talvez comece exatamente aí: quando deixamos de procurar inimigos no mundo e aceitamos conhecer, pouco a pouco, esse outro que também somos.
Durante um período, acreditei que a arte salva, e continuo acreditando, mas hoje a própria ideia de salvação não tem mais o mesmo significado. Salvar, como na língua espanhola, talvez se aproxime mais de um cumprimento: um gesto de reconhecer. Salve! Saúdo algo que finalmente posso ver. Aquilo que ainda não estava pensado passa a existir em nós e, inevitavelmente, nas nossas relações.
Pensar que a salvação virá de fora, de outrem, é caminhar na direção oposta da transformação que silenciosamente desejamos fazer. É adiar o nosso próprio quinhão de ação, criação e realização. Mas, tantas vezes, nos atropelamos. Partes da nossa personalidade atravessam o caminho e seguem outra rota. Descombinado o combinado?
São tantas curvas que desistir de chegar talvez nos permita abrir uma lata de coca-cola e beber com calma. E, enquanto isso ? se a coca não te matar ? procurar a alma que existe em cada coisa. Até mesmo na reprise da televisão repetindo sempre os mesmos pensamentos.
A música Video Games, da Lana Del Rey, toca mais uma vez, e você pensa: ?já escutei essa faixa.? E a gente esquece que entrou no modo repetição. Espera aí também tem o modo criação!
A própria ideia de fases do jogo tem hora que cansa. Às vezes não estamos vivendo, estamos apenas comentando a própria vida por dentro. Um monólogo infinito. Pensamos sobre tudo, sem que algo realmente nos aconteça. Aprender a se ouvir talvez seja interromper essa narração por alguns instantes e permitir que a experiência diga alguma coisa antes de nós.
O anseio por resolver tudo, nos afasta das pequeninas escolhas possíveis, da delicadeza de permanecer, da gentileza de suportar aquilo que ainda não sabemos.
Talvez aprender da experiência seja apenas isso: permitir que alguma coisa aconteça em nós antes de respondermos ao mundo. Mas quem disse que o mundo faz perguntas?
No fim, talvez não levemos respostas.
Talvez levemos apenas aquilo que, um dia, conseguimos transformar em experiência.