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O conceito de Rêverie, desenvolvido por Wilfred Bion, propõe uma visão da mente humana como um sistema dinâmico de transformações das experiências emocionais. A mente não seria um repositório de conteúdos, mas um campo vivo onde as emoções, quando acolhidas e metabolizadas, podem se organizar ou ser pensadas, simbolizadas e publicadas em linguagem, forma e movimento. Esse processo se inicia nos primeiros vínculos, nas experiências com nossos cuidadores, quando o bebê, ainda sem recursos simbólicos, projeta no outro seus estados mais brutos, aquilo que Bion chamou de elementos beta, fragmentos que não podem ser pensados e que precisam de um continente que os receba, transforme e devolva sob a forma de sentido. Um cuidador que possa sonhar o sonho do bebê, como uma espécie de 6º sentido, que capta, recepciona e traduz as necessidades, sensações e experiências corporais deste bebê. 

À luz das Teorias do Apego de Bowlby e da noção Winnicottiana da mãe suficientemente boa, podemos pensar a noção da Rêverie como continente, ou uma rede algodonosa, como escreveu o psicanalista argentino Dário Sor: ?Pensamos em uma mãe capaz de tecer uma rede de devaneios enquanto vive a absorção algodonosa e, portanto, amortizadora do doloroso impacto da identificação projetiva?. A palavra continente aqui, se refere à capacidade psíquica de um indivíduo (ou de um ambiente, como a mãe ou o terapeuta) de receber, tolerar, processar e transformar emoções e pensamentos desordenados em algo significativo e manejável.

Um encontro com um outro capaz de sonhar por nós e conosco, de sustentar aquilo que ainda não podemos sustentar sozinhos. A função de Rêverie é justamente essa, o estado de abertura e atenção sensível que permite que a experiência emocional seja transformada, que o caos encontre forma, que o sentir possa se tornar pensamento.

Para Winnicott, a mãe suficientemente boa não elimina o desconforto, mas o traduz e o devolve de forma suportável, ajudando o bebê a construir uma experiência de continuidade do ser. É por meio dessa presença sensível e responsiva que o bebê vai aprendendo a confiar no ambiente e, gradualmente, a se tornar capaz de estar só, sustentado internamente pela experiência de um outro que o segurou, física e psiquicamente

Nem sempre conseguimos ?sentir o que sentimos? e pensarmos sobre a experiência emocional que nos atravessa nas experiências relacionais. A vida adulta, com suas exigências e repetições, muitas vezes, a emoção não encontra passagem, e o que não é elaborado pela mente se inscreve no corpo. O soma (corpo) torna-se então o continente, o lugar onde aquilo que não pôde ser simbolizado segue existindo, esperando a possibilidade de ser simbolizado. A experiência não metabolizada permanece ali, no que Kant chamou de Caos, pedindo escuta e digestão para se organizar em Cosmos. 

Em Kant, a tensão entre caos e cosmos expressa a passagem do informe ao ordenado, da natureza bruta à razão que dá forma e sentido ao mundo. O caos representa o estado inicial de desordem, onde nada ainda se organiza sob leis; o cosmos, por sua vez, surge quando a razão humana impõe estrutura, produzindo um campo de inteligibilidade. Essa passagem não é apenas cosmológica, mas também subjetiva: é o próprio exercício da razão que transforma o caos interno das sensações, afetos e impulsos em uma experiência pensável e comunicável. Assim, o cosmos kantiano é menos um lugar e mais um gesto, a tentativa constante de fazer sentido diante do indeterminado.

Qual seria, a qualidade e condição básica para que essa co-regulação possa se sustentar mesmo com a desorganização no campo das relações? Uma Rêverie que tenha a qualidade de uma rede de sustentação, permitindo que o vínculo se sustente seguro. Um vínculo que tenha uma tessitura emocional que seja estruturante - que seja suficiente encorpado, para incluir e processar o prazer e o desprazer, a confiança e a instabilidade.

Como escreveu Maria Bethânia, ?no seu corpo é que eu encontro, depois do amor, o descanso e essa paz infinita?. A partir dessa poésis, talvez possamos pensar sobre a experiência emocional de segurança nos vínculos. Uma qualidade de Rêverie, que nos permite encontrar descanso. O que antecederia, quais as condições precedentes para que a experiência emocional na relação com o outro tenha segurança? Uma Rêverie que se sustente mesmo diante ausência do outro. 

Há uma comunicação silenciosa, pré-verbal, feita de gestos, microexpressões, respirações, olhares. Algo acontece entre corpos, antes mesmo que as palavras possam nomear. Essa troca invisível é o campo onde a Rêverie se manifesta, onde o sentir encontra eco.

Segundo Bowlby, quando a matriz interna é organizada a partir de um vínculo seguro, o mundo relacional se torna um território explorável. Existe uma confiança na base do sentir, de quê a conexão permanece e que a ausência não equivale a abandono. Essa confiança primária oferece um porto seguro, onde o laço, o vínculo não esvanecem: o outro pode ir, voltar, se afastar sem perder ou de aproximar, entrando em uma intimidade maior sem que isso represente uma ameaça.

Bion nos fala sobre a dimensão da tolerância emocional; da capacidade de suportar o desconhecido, o não saber, o tempo entre o estímulo e a resposta, permitindo que a experiência seja transformada e não evacuada. A função de Réverie aqui se apresenta como o espaço de sonho que metaboliza, que acolhe sem esmagar, que espera sem colapsar. Posso tolerar o movimento do outro, sustentar a diferença, regular a distância sem vivê-la como abandono e confiar que a separação não significa exatamente uma perda. Se, porém, a matriz está marcada por experiências de ausência, invasão ou retraimento, a aproximação ativa padrões antigos, reacendendo o medo da perda e/ou o impulso de controle.

Nesse campo intersubjetivo, a Rêverie opera como uma ponte, permitindo que o vínculo seja também um espaço de criação, onde a experiência possa ser ressignificada, onde o corpo possa habitar um lugar, uma posição de segurança. O encontro deixa de representar ameaça e se torna continente.

Estar em um ambiente suficientemente seguro, não significa eliminar o conflito, mas reconhecer que a turbulência emocional faz parte da convivência e poderia ser suportada. A vida, como uma música, é feita de altos e baixos, de graves e agudos, e talvez a pergunta mais importante seja qual condição interna preciso desenvolver para desfrutar e ao mesmo tempo tolerar as frustrações inevitáveis que os vínculos trazem.

Viver seria então aprender a estar com o outro sem perder-se de si, sustentar a diferença, é deixando afetar sem se dissolver ou romper, cancelar a relação.

A canção de Chico Buarque, Todo Sentimento, há um verso que diz: ?Um tempo que refaz o que desfez, que recolhe todo o sentimento e bota no corpo uma outra vez.? Essa imagem me atravessa porque fala justamente dessa Rêverie que ainda está se estabelecendo, que como um organismo vivo vai construindo seus alicerces. Uma relação que vai se entrelaçando em meio as turbulências emocionais e se transforma. Uma relação que vai se reencontrando em novos lugares de mais estrutura e segurança. Na letra da música de Chico, podemos imaginar uma intensa turbulência emocional se transformando e sendo ?vestida? novamente. Parece se estabelecer uma nova qualidade advinda de uma reconciliação, de uma metabolização ou digestão. É um tempo que refaz, que recolhe o que parecia perdido, e coloca novamente no corpo a vida, o desejo, a esperança.

A Rêverie, nesse sentido, seria o movimento que nos permite atravessar o peso da experiência e a devolvê-la ao corpo como presença viva, como aprendizado silencioso, como possibilidade de continuar amando.

E talvez seja esse o convite que fica, o de nos aventurarmos nos vínculos de maneira segura, o mais segura possível, confiando que as transformações podem acontecer, com todas das turbulências emocionais inerentes a toda relação.